A Suprema Voz do Blues
o resgate da generalidade de Ma Rainey
Nos anos de 1920, o blues passou por uma transição estilística. Deixou de ser rural após a migração de milhares de trabalhadores negros do Sul dos Estados Unidos, principalmente do Delta do Mississipi, na busca de melhores oportunidades no Norte (bem longe da exploração dos fazendeiros brancos). A adaptação ao ambiente urbano, principalmente em Chicago e Memphis, foi imediata. O teor das letras foi o primeiro a ganhar outros direcionamentos. A dura realidade da vida no campo ficou em segundo plano. O sexo, brigas, bebedeiras e as desilusões amorosas se tornaram se tornaram mote central das composições.
Antes desse “gênesis” para as grandes cidades, os músicos já chamava a atenção de produtores e empresários [brancos]. As gravações eram feitas de forma precária em quarto de hotéis, banheiros e até mesmo na rua. Esse abandono do Delta contribuiu para que o blues entrasse de vez na indústria da música. Porém, no caso dele, do jazz, gospel e rock n roll, o mercado era direcionado especficamente ao público negro. Por isso eram rotulados de race music( música racial): feita por negros para negros, o que mais tarde se transformaria em Rhythm & Blues (R&B) para colocar na mesma prateleira todos os gêneros de música negra. E apesar de ter os negros como protagonistas, quem lucrava e ditava as regras eram os brancos [o filme Cadillac Records explora esse início].
O blues tem suas complexidades. Algumas delas é possível compreender no filme “Ma Rainey’s Black Botton” (A Voz Suprema do Blues), escrito por Ruben Santiago-Hudson, produzido por Todd Black, Denzel Washington e Dany Wolf, dirigido por George C. Wolfe e protagonizado por Viola Davis e Chadwick Boseman.
O enredo, baseado na peça de August Wilson , acompanha um dia de gravação de Ma Rainey nos estúdios da Paramount em Chicago. “Black Botton” é a música a ser captada. Naquele momento, 1927, Ma já estava pegando a estrada do fim carreira. Antes da aposentadoria, ela gravou centenas de compactos, fazer shows para comunidades negras do sul e centro-oeste estadunidense com sua companhia Rabbit Foot Minstrels, tornando-se a mãe do blues e inspirando Bessie Smith [recomenda-se que assista a o filme Bessie] e Mammie Smith.
Não favorável para os negros, principalmente para as mulheres, inclusive nas cidades do Norte, Ma Rainey não baixava a guarda. Batia de frente sem medir as consequências. Tinha dinheiro, influência, autonomia, poder. Dificilmente passava despercebida (e não tinha como) por sua baixa estatura, corpo volumoso, “extravagância”, e por não esconder escolhas, desejos e sua bissexualidade. Aos 18 anos, ela se casou com William “Pa” Rainey, abandonou seu nome de batismo, Gertrude Pridgett, e passou a ser chamada de Ma Rainey. Muito detalhista, ela prezava sempre pela qualidade. Por isso, só contratava músicos gabaritados: Louis Armstrong (trompete), Buster Bailey (clarinete), Charlie Green (trombone), Fletcher Henderson (piano). Levee Green, o promissor trompetista interpretado por Chadwick, que disputa espaço com a cantora durante a sessão, é um personagem fictício que foi comparado a Armstrong (em todos os quesitos).
A discussão acalorada entre eles acontece justamente por causa do estilo de blues que deveria ser feito naquele momento. Levee e o produtor da Paramount querem que o ritmo seja mais dançante, acompanhando a evolução musical da época. Já Ma Rainey bate o pé para fazer o tradicional. Ela é uma das grandes vozes do momento, mas sua pupila Bessie Smith começa a ofuscá-la ao entregar o que os fãs querem ouvir. Ma não se entrega. Segue firme no propósito para fazer o que a faz levantar todos os dias.

O formato de “A Suprema Voz do Blues” não agrada a todos. Tem um direcional com base nas peças teatrais. Se limita, na maioria do tempo, a um ambiente e diálogos longos. Isso não é um problema para quem deseja conhecer a personalidade de Ma Rainey. Com o passar do tempo, e a queda da popularidade do blues tradicional, sua história caiu no esquecimento. O mesmo aconteceu com outras mulheres pretas que ajudaram a sedimentar a música: Mamie e Bessie, Sister Rosetta, Victoria Spivey, Ida Cox, Alberta Hunter, Memphis Minnie, Mahalia Jackson. Essa não é uma cinebiografia de Ma Rainey, apenas faz o recorte que dá uma ampla visão da sua representatividade e importância. Também reflete as tensões raciais da época.
Os diálogos entre o trombonista Cutler (Colman Domingo), o contrabaixista Slow Drag (Michael Potts), o pianista Toledo (Glynn Turman) e Green descrevem esse cenário do final dos anos 1920 e início de 1930. As histórias que contam mostram os efeitos causados pela discriminação racial, a dominação do cenário musical pelos brancos e a desvalorização dos músicos pretos, que também movimentavam a indústria com o gospel e o jazz - e influenciando a explosão do rock.
Consequentemente, toda essa cadeia gerou frustrações em pessoas vulneráveis que foram descontadas naquelas que tinha ainda mais vulnerabilidades. Outros pontos a serem observados, que podem passar despercebidos, são (1) a influência do cristianismo protestante na cultura afro-estadunidense; e (2) o uso da maconha pelos músicos negros [algo tradicional entre eles desde sempre, e também por isso a discriminação da cannabis]; (3) a forma que se gravavam os vinis. Tudo era feito valendo. Um erro gerava prejuízos.
Fato é que as mulheres tiveram papel fundamental na consolidação do blues. No final dos anos 1920, a tríplice coroa Ma, Bessie e Clara Smith (que não tinha parentesco nem com Bessie e muito menos com Mamie) eram as cantoras que mais faziam dinheiro com shows e discos, gravando mais de 70 compactos [com um ou dois singles]. É um legado que não pode ser apagado.
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*o texto original foi publicado em 17 de fevereiro de 2021 no Per Raps


