às terças tem "culto" na Central 1926, em SP
não tem nada relacionado à igreja. é a Central Jam.
Na terça-feira, às 19h, o culto se inicia na Central 1926, que fica entre a Praça da Bandeira e a estação do metrô Anhangabaú. Quem lê pensa imediatamente que o antigo prédio de uma subestação de energia da Light, que já abrigou o Red Bull Station, disponibilizou seu espaço para alguma igreja. Felizmente não. Os fieis que aparecem ali, com o figurino muito bem alinhado, estão em busca de um tipo de benção que só a música tem a possibilidade de conceder.
No segundo andar, quase no centro do salão com arquitetura industrial, a cozinha está pronta. Bateria, teclado e sintetizador, percussão, baixo e guitarra fazem um semi-círculo. Antes da equipe de louvor assumir seu posto, o DJ NVGO abre a sessão. Alguns aproveitam para apreciar as exposições de fotografia de Lucas Lourenço e do Getup, ver roupas no brechó da Sensi Coletiva e apreciar quitutes caseiros da Amabile Confeitaria. Assim como uma igreja, a entrada é gratuita e tudo funciona no coletivo.
Pouco depois das 20 horas, Kaneo Ramos, Felipe Pizzu, Bruno Silva e Cesar Aringuibel começam a jam session. A temperatura que é alta, promete subir ainda mais. Geral se aproxima para acompanhar tudo de perto, fazer parte do momento. Por mais de uma hora o groove não para. Os MC’ Tonyyymon e O Brabo da Terra do Sol são literalmente os mestres de cerimônias. Fazem a introdução com seus freestyles, complementando a execução de artistas que se achegam e entram pelo lado esquerdo para cantarem autorais ou interpretarem canções consagradas. Jhow Araujo, por exemplo, sustentou com elegância “Feeling Good”, da Nina Simone.



É difícil não se impressionar com a qualidade e a multiplicidade de vozes que passam por ali. Conversando informalmente com o produtor Rico Manzano, que é um dos idealizadores do projeto Central Jam, digo que essa é uma grande oportunidade para a descoberta e impulsionamento de talentos que dificilmente terá espaço autêntico, intimista e acolhedor para compartilharem sua arte. Ele concorda e diz que sempre é “aquela loucura”, uma fusão de estilos que deixa a experiência ainda mais interessante. Tem de tudo, do jazz ao soul, passando pelo alternativo, gospel e indie. Para cantar, é só chegar.
Fui na sexta edição a convite da Bebé Salvego, que também encantou com uma performance refinada naquela noite de 06 de maio. Também passaram por lá Thomé, Jamile, PETER, YORI. Um dos ápices, ao meu ver, foi o momento em que PRETO COR DE OURO teve sua oportunidade. Se dizendo tímido, ele prendeu a atenção como um ministro que prega a palavra. O próprio fez a analogia de que aquela atmosfera tinha algo sagrado, como um templo. “Já tivemos o momento do louvor, das ofertas e agora é o da consagração”, disse se ajoelhando. Mãos se levantaram e améns foram ditos. Antes de entregar o microfone cantou um acappella do seu single “BEBIDA FORTE”. Inevitavelmente, foi ovacionado. Isso aconteceu várias vezes ao longo daquelas 5 horas.
Sem vontade nenhuma de ir embora, saí impressionado. É um movimento que está acontecendo de forma orgânica para uma comunidade sedenta por um tipo de arte que não tem pressão mercadológica. A manutenção é um desafio necessário. Os espaços de mic aberto em São Paulo, e fora da capital paulista também, não possuem tanta acessibilidade, seja para quem quer apenas curtir ou aqueles e aquelas (profissionais ou amadores) que estão na disposição de mostrar a musicalidade que tem guardada. Que as portas continuem abertas, para a honra e glória da boa música.





Grato por isso! 🥂