escutar é necessário
mais um aprendizado a partir de conversas na #2 edição do Encontro de Jornalismo Cultural de Coimbra (Cu.Co.)
Está cada vez mais difícil escutar. Parece ser fácil, porém, não estamos interessados em prestar atenção, compreender e processar o que ouvimos. Temos anseio para falar, mesmo sem nada a dizer. A opinião sobre qualquer coisa está sempre na ponta da língua ou dos dedos que ficam ansiosos para digitar ferozmente na tela dos celulares. Esse ato de consciência no que se ouve pairou todas as mesas, conversas nos cafés, almoço e jantares, after e no after do after da segunda edição do Cu.Co. - Encontro de Jornalismo Cultural de Coimbra.
Meio que involuntariamente, a peça teatral “As perguntas da Menina do Ó” (Ciclo N.I.B / HAB Associação Há Baixa Coimbra) nos fez pensar nas perguntas que não fazemos para nós mesmos. Queremos sempre respostas dos outros. Por isso, cobramos que sejam rápidos e urgentes com nossas demandas. A mesma sensibilidade não existe em prol de quem está do outro lado. Afinal, o mais importante é aquilo que nos importa, não importa como. Na relação entre jornalistas culturais, artistas, assessores de imprensa e os movimentos culturais, isso acontece de forma recorrente. A problemática é a mesma em todos os lugares do globo: os medias precisam sempre estar à disposição para escutarem o que todos têm para dizer. Mas poucos querem ouvir o que eles (as) precisam dizer. Pode não parecer, mas esses profissionais também são pessoas com muito trabalho a fazer, centenas de e-mails e mensagens chegando todos os dias, vida pessoal, problemas, compromissos e uma vida para viver.
Essas discussões foram extremamente necessárias, assim como ter acesso a instrumentos portugueses quase extintos. Alguns deles, pelas mãos talentosas de pessoas dedicadas da Associação Cultural Museu da Música de Coimbra, estão ganhando vida novamente (sendo desextintos). Esse é o caso do guitarrinho, da guitarra toeira, com seu som único, doce, leve (que parece ter sido criado digitalmente por um sintetizador) e do bandolão, o qual fizeram uma reprodução baseada numa foto dos anos 1930. Uma experiência inédita foi assistir a peça teatral “Com que Linhas te Cruzas? A Viagem” (Teatrão) dentro de um BRT (no caso português, metrobus). Uma amostra de que mesmo com posições diferentes, todos nós temos características comuns, (e pasmem) inclusive políticas.
Nesse cruzamento, a escuta voltou à tona no filme “Por ti, Portugal, eu Juro!”, de Sofia da Palma Rodrigues. Ele deu voz a ex-soldados de Guiné, combatentes da Guerra Colonial (1961-1974), recrutados por Portugal para combaterem em Moçambique, Angola e Guiné. Ao término, foram abandonados sem receber o prometido [a cidadania portuguesa, em especial]. Essa foi a primeira - e talvez única - oportunidade de falarem o que durante anos guardaram para si, porque somente os seus algozes tiveram lugar de escuta.
A padaria brutalista mostrou que o experimento faz diferença até na produção de pães, e mais uma vez se provou que ciência e espiritualidade podem ser complementares. “Lugar que escuta, cidade que germina” foi o único bate-papo em que de fato a necessidade de escutar foi levantada como parte do programa. Também confirmou, nas intervenções, a necessidade de ter uma relação de troca entre as partes envolvidas. Para isso, é necessário que haja uma aproximação e (principalmente) diálogo para que a comunicação da arte, música, dança, teatro e as mais diversas expressões artísticas do lugar chegue à mídia sem ruídos e, consequentemente, ao público. Da mesma forma, a cultura deve ir até a população. Não esperar apenas que ela aprecie um tipo onde está estabelecido (museus, casas de concertos, galerias). Ouví-las, para identificar o que desejam apreciar pode ser essencial para chamar atenção de quem acredita não ser pertencente a determinados ambientes.
Ter imergido novamente na cultura de Coimbra , à convite de Rui Miguel Abreu e Fátima Mineiro, abriu minha visão para áreas que não enxergava. Foram trocas reais e absorção de muito conhecimento para ser compartilhado. Para além disso, construir pontes, fazer conexões, começar amizades, ouvir e contar histórias enquanto copos eram virados se tornou uma das experiências mais incríveis que o Cu.Co. proporciona aos convidados e aqueles que se juntam ao longo dos caminhos percorridos.




