Imersão no "universo dissolutivo" de Bebé, ao vivo no CCSP
ela apresentou antecipadamente músicas do álbum "Dissolução".
Ambos os lados da parte inferior do teatro Adoniran Barbosa do CCSP estavam com quase todos os lugares tomados. No centro do palco, 360 graus, Bebé faz a introdução e, logo de início, emenda uma sequência de “O Segredo das Coisas” e “Evapora Lágrimas”. Ao redor dela estão a DJ Lys Ventura, a pianista Louise Woolley, Felipe Salvego, na guitarra, Alala Ananias, na bateria e Vanessa Ferreira, no baixo.
É sexta-feira, 17, e as músicas do álbum “Dissolução” são apresentadas com antecedência ao público. É uma espécie de audição. Mas diferente das tradicionais porque acontece ao vivo. Assim, os presentes têm a oportunidade de pegar cada nuance da fusão do eletrônico com o orgânico, dos instrumentais, somadas às expressões vocais da cantora.
Esse compartilhamento em tempo real deixa a experiência auditiva mais interessante, gerando curiosidade de como serão as versões originais. Sempre carismática e sorridente, Bebé tem momentos mais introspectivos e outros pulsantes. Interage, caminha, se aproxima da platéia. A banda que escolheu, majoritariamente formada por mulheres, fortalecem ainda mais a estrutura. Sou impactado pelas linhas do baixo e do contrabaixo de Vanessa. Em alguns momentos o volume fica um pouco acima dos demais, gerando um impacto nos ouvidos. Difícil não perceber os graves, que se une à pulsação coordenada por Alana, que faz uma espécie de dobra dos beats.
O show é intimista, coerente, divertido. A música domina. As luzes complementam, porém o que prende a atenção é a musicalidade. Tem uma certa sujeira na textura, algo necessário para que não fique plastificada, com excesso de higienização que tira o toque humano. O mesmo acontece durante a performance, os erros estão presentes. Começa. O click não chega. Para. Começa novamente. Faz parte. Nada tira a beleza do momento. Todos aguardam com tranquilidade. O ao vivo tem dessas, porém, está perdendo a essência porque existe uma vontade da maioria de excluir qualquer possibilidade de deslize, o mínimo que seja. Assim, perde-se o brilho e a vontade de sair de casa para ver algum tipo de espetáculo musical.


Ao contrário disso, por aproximadamente 1h20, Bebé deu mostras de que o disco sucessor de “SALVE-SE” (2024) vai vir completamente diferente deste e do auto-intitulado (Bebé) de 2021. Arrisco a dizer que “Dissolução” tem as características dela impressa. Não que estejam ausentes nos outros. É que nesse ela assume a produção. Direciona. Por esse motivo, coloca muito de suas influências e traz para seu ”universo dissolutivo” o trio Tuyo, Tássia Reis, Brisa Flow.
Do jazz de Wayne Shorter e Esperanza Spalding, que sempre faz questão de reforçar, passando pelo rap, neo-soul, flertando com Flying Lotus e Mk.gee, e chegando naquela sonoridade que levou Minas Gerais para o mundo através do Clube da Esquina. Inclusive, emocionada, presta uma ode à Lô Borges (falecido em 2 de novembro), lamenta por não tê-lo visto em ação presencialmente e canta “Tudo o que você poderia ser”. Ao final, com a guitarra empunhada, fecha com “Eu Quero Viver”, uma daquelas que não podem faltar no seu repertório.
De um disco para outro, Bebé evolui. Sobe cada vez mais os degraus. Também expõe suas verdades, tanto nas letras quanto nas músicas. “Ano do Cavalo” e “Compartilhando o Céu” são boas apostas. Mas se faz necessário esperar o lançamento [ainda sem previsão] para escutar com um pouco mais de atenção. Ela continua falando de amor, paixões, desilusões, prazer, poder. Mas dessa vez faz refletir sua identidade. Amadureceu, e isso fica explícito nessa obra.


