IMPROVISE SEM IMPROVISO
O jazz ensina como NÃO improvisar
Constantemente usam o jazz como exemplo de que o improviso pode ser a solução de questões relacionadas à criatividade (e aos negócios) em determinados momentos. O conhecido jeitinho que faz parte da genética de quase todos os brasileiros. Só não dizem que para improvisar o jazzista tem que estar preparado. Quando o tempo dele chegar é necessário surpreender. A plateia aguarda isso. Se não estiver pronto, a improvisação pode acabar com uma apresentação que até aquele ponto estava impecável.
Uma vez presenciei esse desalinhamento causado por um tipo de freestyle que saiu da cadência. Ficou visível para quem presenciou que a pessoa não estava preparada para assumir o controle. Quando isso acontece, o conjunto se perde. Não por acaso, depois que um músico termina sua sessão, todos voltam ao tema a qual estão baseados. É algo individual, mas também coletivo.
“Os músicos deveriam ‘presumir’ o tempo sobre o qual eram tocadas complexidades rítmicas de uma sutileza quase africana”, escreveu Eric J. hobsbawm em História Social do Jazz.
Isso quer dizer que para chegarem a esse nível de excelência tiveram que estudar por horas e horas. O improviso não é feito simplesmente no improviso. Sempre existe um fio que conduz. É tipo um bom filme: precisa ter uma abertura de impacto, a tensão, o clímax, a reviravolta e o final que o espectador vai decidir se é a conclusão ou terá uma continuidade. Para se chegar a esse resultado é necessário estudar, aprender, repetir, errar e repetir novamente.
Usando as palavras de Frank Barrett em “Sim à desordem”, o que permite que os músicos de jazz improvisem não é apenas a generalidade ou a técnica, mas sim a tal da “busca incessante de aprendizado e de imaginação disciplinada”.
“O objetivo da improvisação é ser consciente e criativa, ter ideias imediatas que respondam ao que está acontecendo no momento, mas o caminho até a adaptação da consciência passa pela imitação, pois como o jazzista aprende, às vezes a única opção é recorrer aos padrões aprendidos inconscientemente”.
Imitar não quer dizer copiar nota por nota. É uma forma de resgatar aquilo que você aprendeu, guardou e foi transformando a partir do repertório desenvolvido. Para criá-lo é preciso exercitar-se diariamente. Tudo, absolutamente tudo, ajuda a desbloquear ideias que parecem estar presas: do curso mais completo até aquela conversa informal regada a petiscos e cerveja. Porém, para que a absorção aconteça, mesmo que inconscientemente, a mente precisa estar sempre aberta para experimentar o que ainda não conhece.
Só assim, quando for necessário improvisar, sem seguir totalmente o script (o ppt), o desenrolar sairá conforme o esperado. Do contrário, serão apenas sons jogados no ar. Uma típica enrolação que fala tudo sem dizer nada.
LIVROS INDICADOS
“Sim À Desordem: Lições Surpreendentes Do Jazz Para Líderes Contemporâneos” - Frank J. Barrett.
“História Social Do Jazz" - Eric J. Hbsbawm.


