Nossa incapacidade de aceitar experiências musicais que fogem dos padrões
Vera Fischer Era Clubber é a vítima da vez
Cada vez mais estamos com menos disposição para experiências musicais que fogem daquilo que definimos ser convencional. Tudo que não se encaixa nos padrões gera estranheza. Queremos que soe limpinho, sem sujeira, quase sem humanidade. Já aconteceu com Sérgio Ricardo, Bob Dylan, Jards Macalé, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, a Vanguarda Paulistana, Tim Maia, na sua fase Racional. Também não ficaram de fora o Bebop, o brega, a lambada, o funk, o Emo, o rap.
Passaram-se as décadas e os malditos e incompreendidos se transformaram em gênios. Porém, para alguns, o reconhecimento veio só depois de muito se reafirmar. Outros só foram evidenciados após a morte, principalmente com a (re) descoberta de DJs e produtores do exterior. Inevitavelmente o ciclo se repete.
A “vítima” da vez é a Vera Fischer Era Clubber, uma banda peculiar do Rio de Janeiro que virou foco dos usuários do Twitter - que no CNPJ é X - depois de um teaser da sua apresentação no Cultura Livre (TV Cultura).
Como fogo em mato seco, o vídeo se alastrou pela timeline. As críticas também. Tudo a partir de um pequeno trecho. Com absoluta certeza, poucos foram atrás do vídeo completo ou de algum disco para entender o contexto. Teve até quem a comparou com a fictícia Bichinho de Matar com Pedra, do Hermes e Renato, da extinta MTV Brasil. Algumas das indignações também diziam que a TV Cultura estava dando um espaço importante para um tipo sem tato musical, quase algo tirado de uma esquete humorística, e que tinham artistas com mais talento precisando daquele holofote.
De fato existem. Mas, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Também preciso pontuar que aqui não existe nenhum tipo de comparação artística. O que reflito é sobre a incapacidade das pessoas de abrir a possibilidade para ouvir algo de diferente. Assim pode julgar se é bom ou ruim para seus ouvidos. Entender o conceito, propósitos e ideias pode também ajudar na compreensão. E apenas aceitar essa diferença já seria ótimo. Mas não estamos prontos para isso.
No final das contas existe uma necessidade de colocar juízo de valor e opinar sobre aquilo que entrou na trend. Se for no caminho contrário da maioria, a chance de entrar no bolo crítico é de 100%. Lucas Silveira, da Fresno, recebeu uma enxurrada de comentários só por falar que “uma parcela idiota da internet é incapaz de conceber que existem coisas que não são feitas pra eles gostarem. isso se repete desde o emo era a novidade a ser ridicularizada por essa parcela”.
Concordo com essa visão. Nem tudo é para todos. E se não te apetece, mude de sintonia até encontrar algo agradável. A régua de ruim e bom é pessoal, como disse João Parahyba (Trio Mocotó) na conversa que tivemos no Rimas e Batidas.
“Eu vou falar pra você, sinceramente, o que eu falo há 50 anos: só existem dois tipos de música, a música boa e a música ruim. O que é música boa pra mim? Aquela que eu gosto. O que é música ruim pra mim? Aquela que eu não gosto. Isso vale pra qualquer pessoa no mundo. Existe a música que me toca, a música que eu gosto, a música que me representa politicamente, a música que me faz ir contra guerra, a música que me faz ter amores, ter paz”.
Para o equilíbrio faz-se necessário ter aquilo que incomoda [tem gente que não tem paciência de ouvir free jazz]. Precisa ter porque senão fica tudo pasteurizado. É um mais do mesmo infinito. E se por um lado a estranheza de Vera Fischer Era Clubber gera insatisfação, a do Angine de Poitrine tem sido celebrada. Obviamente, ambos vão para caminhos bem diferentes, tendo em comum os padrões da indústria mainstream. Entretanto, o duo de Quebec, formado Klec de Poitrine e Khn de Poitrine, está recebendo a aura de inovadores cults por usarem escalas microtonais. Mas assim como VFEC, usam um tipo de linguagem não entendível que, da mesma forma, parece ter saído de uma esquete de comédia. Um peso, duas medidas.
É verdade que o instrumental deles me agrada mais do que o frenesi “descontrolado” e divertido de uma espécie de trip hop da Vera Fischer Era Clubber. Isso não tem nada a ver com ser disruptivo, underground ou culto. É apenas questão de gosto. Pode ser que daqui 10 anos um faça mais sentido que outro. No resumo, perder tempo com o que não se gosta é literalmente uma perda de tempo. Mas tem que estar aberto para ao menos provar algo que não esteja no seu cardápio diário. Temperos inusitados resultam em sabores excêntricos. Apenas experimente.




E tem uma camada interessante que transcende a música: movimenta a cultura. Esse falatório gera um certo hype sobre VFEC. O grupo deve estar radiante com o fenômeno. Mais alcance, mais sucesso, para artistas genuínos. Que raro e que bom!
Por outro lado, as críticas ajudam demais a divulgar demais o VFEC. No começo da carreira, Erasmo Carlos costumava publicar criticas de forma anônima contra ele em revistas pra gerar um hype em cima do nome dele.