Nyron Higor: a elegante combinação entre o clássico e o moderno
Necessário para os ouvidos
_publicado originalmente no Sounds and Colours (em inglês)
Um fato: nos tornamos dependentes dos algoritmos musicais. Por eles indicarem o que gostamos de ouvir, deixamos de pesquisar coisas diferentes. Antes entrávamos nas lojas de discos e íamos descobrindo de acordo com a capa, ficha técnica ou indicações dos vendedores. Hoje, recebemos uma quantidade exorbitante de informações que até fica difícil escolher o que colocar para tocar primeiro.
Assim, a escuta não se expande. É verdade que ainda hoje algumas descobertas são feitas através de amigos, críticos, pesquisadores, listas musicais e, no caso dos jornalistas e críticos, relações públicas que compartilham as novidades dos selos e gravadoras que prestam serviços.
Foi dessa forma que conheci o trabalho do compositor, cantor, multi-instrumentista e produtor brasileiro Nyron Higor. Semanas depois que estava mergulhado no segundo álbum dele, que foi me enviado antecipadamente pela Far Out Records, a cantora Bebé me disse que tinha falado sobre o meu trabalho jornalístico para Nyron. Essa foi a confirmação de que tinha que apresentar a obra desse artista incrível, ainda pouco conhecido, para outras pessoas.
Até aquele momento também não conhecia o primeiro disco dele, “Fio de Lâmina”, mas fui incentivado por Bebé a ouvi-lo. O mergulho foi ainda mais profundo. A musicalidade de Nyron é delicada, rica, mesmo sendo minimalista, refinada e muito bem lapidada. Ele faz parte de uma geração que tem modernizado o jazz e a música popular brasileira (a MPB, um termo que precisa ter seu conceito atualizado).
De Alagoas, no nordeste do Brasil, Nyron Higor atualmente vive em São Paulo. Seu atual projeto, autointitulado, faz uma mescla de temas instrumentais, que passam pelo samba canção, jazz e ritmos da cultura regional nordestina, com canções poéticas de balada direcionadas pelo violão acústico. O álbum é calmo, sereno e tranquilo, mas também possui uma certa densidade (se distingue do anterior que é um pouco mais intenso, porém, não foge da proposta do artista).
É daquelas obras que você coloca para tocar - se for no vinil, melhor ainda -, senta na poltrona, fecha os olhos e relaxa. Possui um toque contemporâneo com pitadas clássicas. Traz uma atemporalidade que poderia fazer sentido dos anos de 1960 em diante, e ainda estará fresco nos próximos 50 anos.
A fusão de elementos orgânicos com eletrônicos é muito bem balanceada, o que deixa o fluxo suave. Nyron Higor criou uma identidade própria, mas podemos colocá-lo na mesma linha criativa - considerando as devidas proporções - de Bill Withers, Michel Kiwanuka, Leon Bridges, Black Pumas, Sessa e Bruno Berle, este último além de contribuir na produção, marca presença como convidado em “São Só Palavras”. Aqui não estou fazendo comparações. Cada um tem suas características, mas em alguns momentos elas podem ser identificadas em algum deles.
Nyron Higor faz a junção do erudito com o popular de uma forma elegante. Agrada os ouvidos apurados, e conquista aqueles que estão dispostos a mergulhar em experiências musicais que não fazem parte das escutas cotidianas. Esse apenas o começo de um artista completo que possui todas as possibilidades de conquistar espaço para além do nicho que está inserido.



Ouvindo muito Nyron e Bebé.. depois de te ler nego.. gratidão por compartilhar.. Ubuntu..
Odara..♥