O "AUÊ" que Marco Telles e Coletivo Candiero estão fazendo aos conservadores da música gospel
xenofobia e racismo guiam o "boicote" à música dos artistas
Lá pelos anos 1950 e 1960, a música evangélica brasileira começou a desabrochar fora dos seus territórios. Influenciados pelo movimento Jesus Freak dos EUA, os Vencedores por Cristo (VPC), liderados pelo Pastor Jaime Kemp, foram um dos primeiros a sair pelo Brasil para evangelizar [levar a mensagem de Cristo] através da música. Para fazer isso, o grupo teve que se envolver na cultura local. Ao invés de fazer algo “enlatado”, usaram ritmos da terra, em especial a bossa nova e samba canção, para falar a linguagem do “povo” que queriam alcançar.
O VPC tinha suas problemáticas por não refletir tanto a pluralidade do país. A quantidade de negros e mulheres em destque era irrisória. Mas um dos seus maiores compositores foi Sérgio Pimenta.
Negro, ele compôs mais de 500 canções, algumas das quais se tornaram clássicos do cancioneiro cristão, incluindo “Cada Instante, Você pode ter, e Aquele que me ama”. Naquele período, as letras tinham um direcionamento poético, que se encontrava com as mensagens bíblicas. Algumas eram explícitas e outras nem tanto, justamente para chegar aos ouvidos de quem não estava interessado em religião. Nos anos 1980, Janires Magalhães Manso se tornou essencial para transformar ainda mais um tipo de canção que era considerada cafona, quadrada e sem qualidade.
Até aquele momento não existia uma indústria musical dedicada a esse gênero - girava em torno de si próprio. Com o Rebanhão, Janires [negro, periferico e com passagem pela polícia, tendo a pena revertida em tratamento em clínica de reabilitação] fez a primeira banda de rock cristão. Um tipo de rock com pitadas de brasilidade e críticas sociais. Tudo embalado com um certo sarcasmo. “Baião” reflete essa forma descontraída de construir uma letra que conversava [e usava o ditado] popular.
“ lampião e lamparina / Vela acesa e candeeiro / Nunca vai salvar ninguém / ‘Inda se vai gastar dinheiro / E o dinheiro anda mais curto / Do que perna de cobra / Filosofia de malandro / No bolso ele farta e nunca sobra"
Nos anos de 1990, a música evangélica se converteu em gospel a partir de uma jogada de marketing do Estevam Hernandes e Antônio Abud. A partir dali, outros gêneros foram inseridos de vez. Nem todos da igreja ficaram satisfeitos. Houve boicotes, julgamentos e discriminações por causa daqueles estilos - a banda Kadoshi sofreu esse preconceito pelo tipo de roupas que usavam, fazendo referência aos tecidos coloridos do continente africano, assim como aconteceu nas décadas anteriores com a proibição da bateria e da guitarra nas igrejas.
As produções musicais lá no início tinham pouco ou quase nada de instrumentos percussivos. Mas houve uma superação na virada dos 90 para os 2000. Criou-se uma indústria bilionária, que continua se sustentando sozinha.
Isso não quer dizer que a qualidade tenha melhorado, pelo contrário, voltou a ser aquela dentro da caixinha. Ficou pasteurizada com releituras e influências de movimentos estadunidenses, europeus e, principalmente, australiano. Perdeu-se a identidade que só tem aqui pela diversidade cultural. E antes que alguém fale de apropriação cultural de ritmos regionais para falar de ‘deus’, é necessário levar em consideração que a população evangélica é formada em sua maioria por mulheres pretas e periféricas. Então, dificilmente será possível desassociar uma coisa da outra. Os filhos e netos delas crescem ouvindo rap, funk e pagode. Dessa forma, somam essas vivências com a religião que escolheu para exercer sua espiritualidade.
Precisei fazer essa contextualização [porque nem todos sabem desse histórico, que desenrolo no livro “A Indústria da Música Gospel”] para chegar no foco central que é a música “AUÊ”, de Marco Telles e Coletivo Candiero. Ela tem causado um auê, literalmente, aos conservadores evangélicos, principalmente os que não estão inseridos nas classes menos favorecidas da sociedade [ou seja, não fazem parte da maioria] pelo trecho que diz:
“Agora que o Zé entrou e todo mundo viu / E todo mundo olhou e todo mundo riu / Ninguém se acostumou, mas o Céu se abriu / Agora que a fé ganhou e a Maria sambou / Sua saia balançou, alguém se incomodou / Com a cor que ela mostrou, mas o Céu coloriu”
Sem interpretação nenhuma, nem contexto, estão dizendo que Zé seria a personificação de Zé Pilintra, uma das entidades mais conhecidas e cultuadas nas religiões afro-brasileiras. Já Maria faz referência a Maria Padilha (a Pombagira) - e ainda, no vídeo, Midian Nascimento canta de vermelho, gerando ainda mais auê. O que os críticos não levaram em consideração é que os pais de Jesus chamavam Maria e José (Zé), e que esses dois nomes são os que mais nomeiam pessoas no Brasil. Porém, como diz na própria Bíblia: “meu povo perece por falta de conhecimento” (Oséias 4:6). Neste caso aqui não é só falta de entendimento, é também racismo e xenofobia, tendo em vista que os artistas são nordestinos.
Sendo assim, inserem elementos da tradição regional nos seus “louvores” [também não se faz necessário que em todas as músicas tenha citação de Deus e Jesus. Nem a Bíblia faz isso]. E tem outro ponto, se pegarmos as 20 músicas do disco “O Grande Banquete - Ao Vivo em João Pessoa”, “AUÊ” é a menos polêmica [digo eu pensando com a cabeça dos que não tem nada dentro dela]. Talvez não tenham ouvido “Velório da Solidão”, que tem estes dois versos de rap:
(1) “A mesa tem tudo, tem branco e tem preto / Tem homi e mulher e quem tem outro jeito / Quem fica no meio, esquerda e direita / Quem reza, quem ora, quem cala e quem treta / A mesa foi feita para quem não é / Na mesa quem puxa o coco é a fé”
(2) “Se a solidão já está enterrada / Porque eles choram sozin na calçada?! / A mesa é pra homem, menino e mulher / Pra aquele que ainda nem sabe o que é / Para os irmãozinho direito e canhoto / Pra aqueles que um dia virei o meu rosto / Se a mesa me cabe, então cabe você / E cabe aquele que ninguém quer ver / De braços abertos vem cá receber / Quem o Dono da festa acabou de trazer”
Fato é que essa discussão envolvendo Marco Telles e Coletivo Cadiero tem sido importante para mostrar que nem todos os “crentes” fazem parte do grupo daqueles “crentes” que todos conhecem. Tem muitas pessoas se movimentando nas artes para fugir dos esteriótipos e não compactuar com o establishment. Também se faz necessário que mais artistas com esse tipo de direcionamento dentro do gospel sejam evidenciados fora da bolha. É verdade que já aconteceu com Thalles, Priscilla, Marcos Almeida e Preto no Branco, porém, a onda passou. Precisa ter um outro levante desses que não seguem a mesma receita pronta de letras de auto-ajuda, enaltecimento do ego, promessas, riquezas, vitórias e até de vingança.
Essas são composições que levam conforto para quem precisa e até geram visão crítica sobre o cenário político e social [Mais Amor por Favor]. Falam de amor, esperança, amizade, compartilhamento. Lembra muito das que eram feitas num passado que poucos se lembram. De Luiz de Carvalho e Denise a Banda Azul, Novo Som, João Alexandre, Shirley Carvalhaes, passando por Resgate, Templo Soul, Daniela Araújo e Leonardo Gonçalves. Um tipo de “louvor” que ajudou pessoas a superar dificuldades, a partir de uma mensagem de afago, que abraça.
Quem não faz parte dessa desse ambiente e olha de fora com olhos de julgamento, pare, escute, analise e pegue o que é bom. Assim como na música “não religiosa”, o gospel existe o bom e o ruim. Não tem como julgar sem ao menos colocar os pés na água para decidir se é fria ou quente.



excelente texto, Deus abençoe