O dia que o Dizzy Gillespie gravou um álbum com o Trio Mocotó
a verdade, que foi considerada "maior mentira" de todas por muito tempo.
*publicado originalmente (em inglês) em 25 de abril de 2026 no Sounds and Colours
Depois de alguns minutos de atraso, Dizzy Gillespie chega sorridente às 15h15 ao Estúdio Eldorado, em São Paulo. Ele cumprimenta a todos, tira os sapatos, pede um minuto, se dirige a um canto, apoia as duas mão no chão e fica de ponta cabeça. Por 30 minutos ficou meditando com as pernas para o ar. Enquanto o trompetista, e um dos criadores do bebop, fazia seu ritual, o Trio Mocotó o aguardava para a sessão. “Foi um dia bem estranho”, diz João Parahyba, um dos integrantes do Trio. “Mas também foi incrível”. Era agosto de 1974. Um dia antes, Dizzy tinha visto João (percussão), Nereu Gargalo (pandeiro) e Fritz Escovão (cuíca)João tocarem no “O Jogral”. Ficou impressionado e os convidou para gravarem um álbum juntos no dia seguinte.
Depois do seu ritual, Dizzy voltou à posição normal e disse: “vamos lá”. Na companhia dele também estavam Earl May (baixo), Mickey Roker (bateria), Al Gafa (guitarra) e Mary Stallings (vocal). “Foi ao vivo e a cores”, observa Parahyba. “Devia chamar Saímos Tocando. Foi ali na hora”. Dos 6 temas, apenas 2 nasceram da improvisação de Gillespie (”Dizzy’s Shout/Brazilian Improvisation” e “Rocking With Mocotó”). “Samba” e “The Truth”, que abrem o álbum, são do pianista e compositor Michael Josef “Mike” Longo, parceiro musical de Dizzy no disco “The Earth Is But One Country”. A cantora Mary Stallings interpreta “Evil Gal Blues”, que ficou conhecida na voz de Dinah Washington, e composta por Leonard Feather e Lionel Hampton. “Behind the Moonbeam” foi escrita pelo guitarrista Al Gafa, que também faz o solo.
Após a gravação, o jazzista pegou a fita master e a levou para o Rio de Janeiro. A intenção dele era mostrálo para os executivos da Sony para um possível lançamento. Mas não chegaram a um acordo. Dizzy se desentendeu com a gravadora que o representava na época, ficou com raiva e guardou o disco.
“Isso foi a maior mentira da minha vida”, afirma João Parahyba. “É um disco que até hoje pouca gente conhece e acha que é lenda. Também não está no streaming, mas é possível achar no Youtube”.
A história só foi comprovada depois que o produtor suíço Jacques Muya encontrou a a master e decidiu lançá-la. “Um dia ele ligou pra mim e falou assim: “olha, eu tenho uma master aqui escrita de ‘Gillespie e Trio Mocotó’. Depois o Jacques trouxe ao Brasil, negociou com uma gravadora brasileira, mas depois acabou se desentendendo com o pessoal de lá”. A partir dessa negociação, “Dizzy Gillespie no Brasil com Trio Mocotó” ganhou uma versão em CD em 2010 pela Groovin’ High e Biscoito Fino. O curioso é que o Trio não foi avisado sobre o lançamento, que logo sumiu das prateleiras reacendendo novamente o mito da parceria dos brasileiros com um dos standards do jazz.
“Eu tenho um (CD) comigo”, revela. Mas lançaram e depois engavetaram, não colocaram na internet (streaming) e não fizeram mais nada. Foi uma glória para mim quando ele (Jacques) chegou aqui. Um velhinho simpaticíssimo, era o melhor amigo do Dizzy e ficou com todos os direitos autorais dele. Acompanhou o Dizzy durante o tratamento de câncer. Uma história bonita”.
Raro, atemporal e uma obra de arte do jazz e do samba, o disco ficou guardado por quase 40 anos. Em 2026 completa-se 52 anos de sua gravação. João Parahyba dá uma esperança de que ele possa ser reeditado ao menos para o acesso nas plataformas de música digital. “Agora, meu filho Janja Gomes e o Estúdio Medusa, e mais o sócio dele, estão tentando negociar com a gravadora, pelo menos para colocar no streaming para todo mundo poder ouvir”. Essa é uma forma de reafirmar a genialidade do Trio Mocotó no jazz. “Na época muita gente ouviu, mas ninguém sabia que ia ser engavetado e sumir de novo”, reflete Parahyba. “Eu fiquei 40 anos falando e os músicos de jazz do Brasil ficavam: Ah, isso é mentira, cara. Falei assim: não tocamos com ele, nós dividimos um disco”. Depois de quase 40 anos, conseguiram provar, mesmo assim (ainda) duvidam por não existir fisicamente. Porém, mesmo não oficialmente, ele está aí para quem quiser ouvir.
“Até eu estava numa loja de discos e comentei sobre ele com a galera e falaram que não existe. Eu disse que existia. Daí procuraram no YouTube e encontraram”.



Bicho que doidera essa mistura!