O jazz não É pra todos
O título, obviamente, é uma provocação. A frase foi dita pelo personagem de Miles Teller, o baterista Andrew Neiman, no filme "Whiplash", que levanta diversas questões, principalmente relacionada ao bullying, assédio moral e tortura psicológica, mas peca ao abordar o verdadeiro jazz. Porém, serve como fio condutor para falarmos sobre a apreciação dessa arte, e de como ao longo do tempo tentaram colocá-la num lugar que não lhe pertencia.
Isso gerou uma falsa crença de que o jazz não é para todos. Na verdade, não é uma música de massa, comercial e/ou pop (não no sentido popular, mas de ser vendável) porque a intenção nunca foi essa. Mas esse contexto não se aplica a todos. Louis Armstrong gostava de receber aplausos e ganhar o seu, mesmo tocando noite após noite. "É isso o que quero: o público. Quero ouvir o seu aplauso", disse ele numa entrevista.
Não por acaso, Armstrong tornou-se o mais bem sucedido jazzista, artisticamente e financeiramente. No mesmo período que ele ascendeu na carreira, o jazz tornou-se popular, com a era swing (nos anos de 1930), tocando nas rádios, lotando boates e colocando muito dinheiro no bolso de empresários brancos. Na época, o gênero era considerado o “maior negócio musical de todos os tempos", porque estava diretamente ligado ao show business e não podia caminhar com as próprias pernas. Por causa disso, alguns músicos se juntaram para criar algo que iria na contramão desse status quo: o bebop, por exemplo.
O objetivo principal dessas transformações era manter a essência da cultura negra e valorizar os seus protagonistas - que apesar de estarem na linha de frente não recebiam a valorização merecida. É por esse motivo que Nina Simone e Miles Davis não gostavam da palavra jazz (antes jass). A primeira a chamava de "música clássica negra", e o segundo dizia que jazz “é uma palavra inventada por brancos” para torná-la mais vendável - isso também refletia nas primeiras capas de discos, que não continham a fotografia do músico.
É verdade também que ao criar o bebop, os músicos envolvidos (sendo Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Kenny Clark, Charlie Christian, Charlie Parker e Miles os principais expoentes) queriam elevar a qualidade do que estava popularizado naquele momento (anos 1940). Queriam ser diferentes, e se distanciar daquela estética simplista. Aceleraram o compasso, deixando o ritmo mais nervoso, frenético. Assim, a dança ficou em terceiro plano para dar espaço à apreciação do que ecoava dos instrumentos de cada músico. Para absorver as nuances tinha que necessariamente ouvir com a devida atenção.
“Embora o jazz tenda a contrariar a estética normativa, isso não quer dizer que ele seja forçosamente ‘inestético’; quer dizer sim, que é possível conceber uma música artística contrária ao padrão estético tradicional”[Berendt e Huesmann, em o Livro do Jazz]
Essas características (provavelmente) fizeram críticos musicais, uma pequena parcela de artistas e “intelectuais” (majoritariamente brancos) acreditarem que a partir daquelas mudanças o jazz não seria mais palatável aos leigos e analfabetos - consequentemente, os negros e pobres.
Por isso, colocaram o jazz na categoria de música intelectualizada, de elite, quando na verdade o propósito estava bem longe disso. Ele conta histórias, dá voz, mesmo sem dizer uma só palavra e mostra a beleza de um povo que foi escravizado, violentado e perseguido cotidianamente. (a maioria dos standards do jazz sofreram com o racismo, violência policial, discriminação, drogas, alcoolismo, falta de dinheiro e morte precoce).
Mesmo criada e direcionada aos negros, (inevitavelmente) o jazz chegou a outros ambientes. Para Miles Davis isso não era um problema desde que também chegasse aos seus pares. “Eu não toco para pessoas brancas, cara. Eu quero ouvir um negro dizer: Sim, eu gosto de Miles Davis”, disse ele ao jornalista Michael Watts, do Melody Maker. Por esse e outros motivos, Miles sempre transformava sua sonoridade, fundindo-a com gêneros que conversavam diretamente com a comunidade dele: soul, funk, R&B, rap.
Dessa forma, é preciso urgentemente desfazer o mito de que para ouvir jazz é necessário entendê-lo. Essa premissa pode ser considerada caso a pessoa queira de fato se aprofundar no conceito, é músico/musicista ou estuda música. O que todos necessitam saber é quem são os protagonistas, a história e a contribuição que fizeram (e fazem) para a humanidade. Apesar da intelectualidade em determinados aspectos, o jazz é sobretudo social.
“O jazz, a forma de arte mais dedicada a seu passado, sempre foi o mais vanguardista, de modo que a obra mais radical é, muitas vezes, ao mesmo tempo a mais tradicional” - trecho do posfácio do livro “Todo Aquele Jazz”, do Geoff Dyer.
[o que me levou a escrever esse texto, baseado em estudos e pesquisas, foi um post fora de contexto de uma grande revista (de coisas interessantes) que trazia no título: como entender o jazz. essa é minha opinião e aqui só ela importa]
Livros recomendados
O Livro do Jazz - Berendt e Huesmann
História do Jazz - Joachim - Ernst Berendt
No Mundo do Jazz - F. Billard
Jazz - Lilian Erlich
Louis Armstrong - James Lincoln Collier
Música com Z - Zuza Homem de Mello
Kind Of Blue - Richard Williams
Todo Aquele Jazz - Geoff Dyer
Paulo Moura, um solo brasileiro - Halina Grynberg
História social do jazz - Eric J.


