O poder de um BOM videoclipe
para além de visualizações e remuneração
O Twitter, ou ex-Twitter, chamado oficialmente de X, ainda é o lugar onde as discussões surgem. É ali que tudo começa a reverberar, apesar dos pesares. Lá, recentemente, o MC Hariel levantou uma questão relacionada à produção de videoclipes em 2025, tendo como referência uma fala da Anitta no Prêmio Multishow (2024). Na ocasião, ela ganhou o “Clipe TVZ do Ano” com “Mil Veces”.
Ao receber a premiação, a cantora disse que “hoje em dia não tá valendo mais a pena fazer clipe, gente, porque a gente gasta o dinheiro e ninguém assiste”. No seu post, Hariel concordou com a visão dela porque “no meu ponto de vista, exatamente o que ela disse no fim do ano passado, tá acontecendo agora. Entender o mercado é muito importante pra chegar onde você quer e mais que isso se manter relevante. A mulher da aula!” Pensando em mercado, ambos podem estar certos. Isso não quer dizer que não estejam errados.
É verdade que o Youtube não remunera mais como fazia no início. A MTV, que era o lugar desejado por todos, não se dedica mais à música. Existem outros canais, como o próprio Multishow, porém, estão bem longe de ser a Music Television no auge. Foi pensando nela que Michael Jackson fez o filme de “Thriller” (1983), dirigido por John Landis, com um orçamento de meio milhão de dólares. O retorno do investimento veio rápido com vendas se multiplicando ao redor do mundo.
Passados 30 anos, tudo mudou, inclusive as formas de consumo - o físico se tornou digital. Porém, a ideia aqui não é falar sobre dinheiro, e sim qual o propósito do artista em fazer um vídeo para determinada música. No caso de Anitta e Hariel, tirando uma conclusão da análise que fazem a partir de suas falas, a questão não está na arte. Fazer vídeos é mais uma forma de rentabilizar. É mais um produto.
Por isso, a maioria não possui um direcional coerente. Parece tudo meio jogado sem uma linha criativa. É mais o registro de imagens aleatórias. Isso faz com que se perca em meio a milhares de outros que são publicados todos os dias. Como tudo, para se destacar é preciso fazer diferente - ou ter muito dinheiro [os investimentos milionários da Kondzilla refletem isso]. Buscando na mente bugada pelo Covid, com uma ajuda do Google, me veio alguns videoclipes que chamaram atenção e geraram rendimentos pela forma diferenciada do storytelling.
Um dos mais falados, compartilhados, analisados, com direto a teses e teses no Linkedin, amados e odiados foi “This Is America”, do Childish Gambino, atualmente com quase 960 milhões de visualizações. Cada detalhe foi destrinchado por completo para chegarem a inúmeras conclusões do que ele quis dizer com aquele filme. As conclusões foram variadas. Comoveu. Irritou. Atingiu a meta.
Contrapondo Donald Glover (a pessoa por trás da alcunha Childish), Residente fez “This Is Not America”. A crítica tem como alvo os exploradores das Américas, principalmente pela dizimação dos povos originários. O rapper porto-riquenho não só colocou o dedo na ferida, como a apertou bem forte, fazendo muita gente se contorcer.
Com “Formation”, Beyoncè mostrou que era possível ser pop, enfática, bela e política ao mesmo tempo. Foi ali que a internet “descobriu” sua negritude [“pode rir, mas não desacredita não"]. O filme é cinematográfico e reforça sua indignação.
Outro, mais descontraído do que os dois anteriores, foi com “Gangnam Style”, do PSY, que de forma caótica conquistou o mundo todo. Esse caos fez a diferença. Provavelmente o sul-coreano não pensou em viralizar. Quase ninguém tem esse potencial, mesmo que prometam. Ganhou atenção pela autenticidade. Isso o fez chegar próximo a 6 bilhões de views - e contando. Em 2012, se tornou o vídeo musical mais visto na história do Youtube, e o primeiro a atingir a casa do bilhão.
Teve ainda Beasties Boys, “Sabotage”; “Hey Ya!”, do Outkast; Miley Cyrus, “Wrecking Ball" (esse virou até meme, um bom quesito de sucesso); MC Hammer, “U Can't Touch This”, Beyoncè, “Single Ladies”; Missy Elliott, “Work It"; Lady Gaga, "Bad Romance".
Olhando para o nosso quintal, Brasil, podemos elencar Racionais MC's com "Diário de um Detento", gravado no Carandiru; “Esperança”, do Emicida, que tem uma certa influência de G.O.M.D, do J. Cole; “AmarElo”, também do Emicida, que começa com um relato sobre saúde mental; Anitta, “Vai Malandra"; Tássia Reis, “Dólar e Euro”, o qual serviu de referência (afirmação minha) para Manu Gavassi fazer “Deve Ser Horrível Dormir Sem Mim”; Tasha e Tracie, “Diretoria”, aquele que o Kendrick Lamar colocou na sua pasta de referências.
O recorte aqui é no rap e funk, mas o YT está cheio de exemplos de que é viável fazer uma produção concisa que vai gerar interesse e retorno financeiro.
Pegando carona no aclamado álbum “DTMF", Bad Bunny não dedicou-se apenas no desenvolvimento das músicas. Fez com que tudo se conversasse. Assim, os vídeos ganharam o mesmo peso para fazer uma “entrega” 360, sendo integrada aos shows. Tanto o minidocumentário quanto os visuais mantêm as características e expandem ainda mais a ideia que ele pretende transmitir. Destaque para “NUEVAYoL! ”. Até a data de lançamento foi cuidadosamente pensada: 4 de julho. Esse foi o Dia da Independência dos EUA, e o conteúdo bate de frente com os posicionamentos do presidente atual de perseguir imigrantes latinos.
Nos dias atuais em que o mercado da música está cada vez menos criativo, Bad Bunny criou um case de sucesso. Não que ele deva ser seguido porque cada artista é um artista. Porém, tem muito a ensinar. Mostra que é possível criar boas e ainda ganhar dinheiro. Repetindo o que o próprio Hariel escreveu: “Entender o mercado é muito importante pra chegar onde vc quer e mais que isso se manter relevante”.




Qualquer arte será relevante se tivermos o que falar! Só quem teve a vida mudada pela MTV vai entender rs
Boa sorte pra nova geração