Shows musicais: consuma rápido, aproveite pouco
Experiências pra guardar apenas na memória do celular
Um, dois, som, teste. Tudo pronto. As luzes coloridas se acendem. As cortinas se abrem. A introdução da primeira música começa a ecoar. De imediato, quase que de forma combinada, os celulares são levantados com as câmeras de vídeo ativadas. Quem não segue o ritual, apenas observa o que acontece à sua frente através das telas.
Isso já se tornou corriqueiro. Normal. Pode ser que você nem se incomode, e/ou até seja uma dessas pessoas que não quer perder nada para rever depois - e mostrar para seus seguidores. Nada contra. Sou desses também, de vez em quando. Tenho o trabalho jornalístico como desculpa. Preciso anotar algumas coisas, gravar outras e também tirar minhas fotos - tudo no telefone (que nem serve mais para o que foi criado originalmente), obviamente.
A partir dessa ação quase automática, quero levantar uma questão: por qual motivo decidimos sair de casa - geralmente à noite - para ir a um show? Penso eu, que deveria ser para aproveitar tudo que o envolve. Porém, essa prática parece estar se extinguindo. Não afirmo a partir de algum estudo acadêmico, e sim (apenas) da minha percepção. O gatilho veio do jornalista do Rimas e Batidas, Ricardo Vicente Paredes, durante uma mesa de conversa que participei em 2024, no Cu.Co (Encontro de Jornalismo Cultural de Coimbra), em Portugal.
Comentando sobre as práticas e estratégias na cobertura de festivais, ele falou da repreensão que recebeu de uma pessoa que ficou incomodada com o uso do celular para fazer anotações durante o show que foi cobrir - e ele é completamente avesso à tecnologia. O mesmo aconteceu comigo em 2017 durante a performance do Alabama Shakes no Lollapalooza. No SP Jazz Week, de 2024, também aconteceu com alguns fotógrafos. Quem estava sentado na área reservada de frente ao palco reclamou porque os profissionais “atrapalhavam” a visão.
Entendo que é difícil ficar alheio a esse detalhe. Mas não somente a ele. O guitarrista Jack White disse em 2014, à revista Rolling Stone, que “as pessoas não conseguem mais aplaudir, porque estão mandando uma porra de uma mensagem de texto com uma das mãos, e provavelmente segurando uma bebida com a outra!". Por esse motivo, alguns artistas proíbem a entrada de celulares quando fazem apresentações especiais em casas pequenas. Aconteceu com o Silk Sonic (Anderson. Paak e Bruno Mars) na série que fizeram em Las Vegas. Prince, Eagles, Björk e Bob Dylan também proibiram o uso do aparelho em suas atuações.
Geralmente, ao entrar no local, os fãs recebem uma bolsa para colocar o celular. Mas esses casos são pequenas exceções. É impossível controlar sempre. Mas pensando friamente, e concordando com quem reclama: se a nossa atenção está direcionada a outra coisa que não esteja relacionada àquele ambiente, estamos desrespeitando tanto o artista (que admiramos) quanto os espectadores ao nosso redor.
Assim, o desejo de criar memórias afetivas daquele período de tempo, que geralmente não chega a duas horas, é inexistente. O mais importante é guardá-lo na memória do smartphone. Nos concertos de música câmara (clássica), isso é inadmissível. O silêncio precisa ser total. (Até se você levar uma criança, será julgado com olhares porque ela pode fazer coisas de criança, que vão tirar a atenção e atrapalhar a orquestra - digo isso por conhecimento de causa).
Os jazzistas tinham uma forma bem peculiar de resolver esse “problema” da indiferença do público, que estava mais preocupado em beber e conversar do que ouvir a música. O jornalista e crítico de jazz Leonard Feather cita (no livro “No Mundo do Jazz”, do François Billard) uma ocasião em que o pianista Art Tatum parou repentinamente uma melodia e disse: “espero não estar incomodando vocês ou será que preciso pôr o revólver em cima de um piano para conseguir silêncio aqui dentro”? Deve-se considerar também que eles tocavam em bares pequenos e os instrumentos não eram eletrificados.
Obviamente, vivemos hoje um tempo diferente dos anos 1920-30. A segunda tela é realidade, inclusive quando a primeira é ao vivo. Já vi pessoas no estádio assistindo aquele mesmo jogo pelo celular. Juntando todas essas coisas, acredito (suposição minha) que estamos trocando a apreciação imersiva, que demanda uma certa concentração, paciência e dedicação, pelo consumo e descarte. Pegamos tudo embalado, mostramos para todos, digerimos e descartamos a embalagem no lixo. Se for legal, compramos um souvenir, como se fosse um brinquedo de fast food.
Uma reportagem do Expresso, de Portugal, abordou esse assunto, tendo os grandes museus do mundo como estudo. Vários deles, principalmente na Europa, estão vendendo mais ingressos do que a capacidade diária porque a procura aumentou. Mas esse interesse cresceu porque ir às exposições, em especial de obras clássicas, como tem no Louvre (França), se tornou hype nas redes. Assim, influenciados por “influenciadores” digitais, jovens fazem peregrinações não por interesse nas obras e seus autores, mas para “produzir” conteúdo, que será publicado para sua audiência (digite no Tik Tok: museum aesthetic). Na música tem acontecido o mesmo.
É fato que registrar tudo o que fazemos já faz parte da nossa cultura. Da geração Z, Alpha e Beta mais ainda. Porém, existe a possibilidade de manter o equilíbrio sem tirar a brisa de ninguém - como exemplifica muito bem este vídeo do Mapa dos Festivais - , valorizar seu artista favorito, cantar, dançar, se divertir e ainda voltar com alguns cliques. Vivenciar ao máximo cada segundo do espetáculo, precisa ser o objetivo principal. Mesmo Bad Bunny dizendo que DeBÍ TIRAR MáS FOToS, é inevitável que elas se percam. Os registros na memória ficarão guardados para sempre.




me veio uma cena pessoal na memória: acredito que 2012/13 na matilha cultural, m.takara com um gringo de convidado se não me engano. bem cheio, uma roda de amigos conversando e rindo e histórias e sexta-feira à noite, enquanto três caras faziam um som inacreditável e pouca gente prestava atenção. lembro que me desliguei de todo mundo ao redor, dei uma afastada meio sem entender pq ninguém tava assistindo e me conectei somente com o bagulho mágico que vinha daquele som, daquela banda. uma lembrança que é pra sempre.