Tire mais fotos, tenha autenticidade, valorize o seu quintal
sobre vivência
Nos anos 1990, o bairro onde nasci e cresci - e que minha família vive até hoje -, Jardim Itatiaia, era considerado um dos mais perigosos de Campinas, interior de São Paulo. Taxistas tinham medo de passar perto. Quase ninguém pagava passagem de ônibus, porque a maioria pulava catraca. Polícia invadia casas. Ser enquadrado era algo corriqueiro, um em a cada 50 passos [nem faço ideia de quantos foram só na adolescência].
Um dos dias mais violentos, resultou em vários mortos. Um deles, tentando fugir, foi pular o portão casa da minha tia. Foi atingido por um tiro e morreu em cima das estacas de ferro. Nessa realidade, vi muitos amigos morrerem sem chegar na maioridade, e outros serem presos. Depois de algumas décadas, a situação melhorou. As experiências vivenciadas ali, boas e ruins, contribuíram para que eu decidisse qual caminho seguir. Os sobreviventes continuam por lá fazendo seus corres, legais ou ilegais. A vida é assim, cada qual com seu cada qual.
Lembrei disso no final de 2024 quando estava fazendo um PPT de uma “palestra” – na verdade uma troca de ideias - com alunos do ensino médio da Escola Estadual do Jardim Marisa, também na periferia de Campinas. Foi mais uma das várias conclusões que tive de que o lugar de onde a gente vem é importante para apontar para onde vamos. É aquela coisa: a árvore só cresce se as raízes dela permanecerem fincadas no chão. Faz parte da nossa cultura, assim como a família em que nascemos e as tradições que ela carrega.
Uso as minhas experiências do local em que vivi por muitos anos para fazer um paralelo com o que Bad Bunny propõe em “Debí Tirar Más Fotos”. Toda a repercussão que tem tido ao redor do mundo é resultado (obviamente) da qualidade musical, que é guiada pelo reggaeton, recebendo complemento de outros gêneros tradicionais da América Latina - salsa, bachata, chá-chá-chá, cumbia, rumba -, mas principalmente pela identificação cultural. Ele defende a sua área e ataca os colonizadores (EUA), que a invadiram para roubar o que ela tem de melhor, e impor seus hábitos e costumes, da música ao esporte, alimentação, língua e moeda.
A forma “leve”, e até descontraída, que Bunny levanta questões sérias traz para perto até quem não está acostumado a ouvir regularmente a musicalidade latina - como os brasileiros. Tem aquela autenticidade que faz músicas regionais se tornarem globais pelo simples fato de gerar identificação com pessoas de culturas que sofreram (e sofrem) os mesmos problemas. Falar das características que só existem naquele território e colocar a identidade dele na narrativa, gera interesse. Bad Bunny conseguiu se comunicar com o mundo falando o seu próprio idioma, com as gírias e “dialetos” locais, e usando a música popular do seu país, Porto Rico.
Isso já aconteceu outras vezes, inclusive com artistas brasileiros. “Garota de Ipanema”, Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes [a canção brasileira mais regravada no mundo] e “Mas, que Nada”, de Jorge Ben Jor, mas disseminada por Sérgio Mendes, são alguns exemplos do nosso terreiro. Esses fenômenos não acontecem sempre, ainda mais com toda a pressão do mercado para que os artistas produzam a nível industrial. Em 2021, C. Tangana fez algo parecido, mas com menor repercussão (sua participação Tiny Desk ajudou a amplificar a entrega), em El Madrileño. Nele, Antón Álvarez, o nome de batismo do artista, faz uma ode à Madri, sua terra natal, explorando o flamenco, cumbia, bossa, funk carioca e reggaeton.
Mais recentemente, em 2024, o duo argentino Ca7riel & Paco Amoroso também chamaram a atenção do mundo pela sua apresentação enérgica, cômica, sarcástica e crítica, inclusive nas roupas que vestiam (a Gabrielle Neves detalha tudo isso aqui) no Tiny Desk, da NPR. O vídeo deles de quase 18 minutos, cantando em espanhol, ultrapassou as 20 milhões de visualizações. Isso não aconteceu apenas pelo apelo visual, todo o contexto contribuiu para que a mensagem fosse entregue aos receptores, que expandiram ainda mais o raio de extensão. Amoroso
A língua pode ser uma barreira, especialmente o português, mas quando é original, tem propósito e verdade, a conexão é feita de uma forma que nem a ciência explica - na verdade talvez explique sim.
No resumo, Bad Bunny fez o que muitos se esforçam para executar de uma maneira forçada, sem naturalidade - na música, artes visuais, cinema, publicidade, literatura. Inevitavelmente, se tornou um case de sucesso pelo conjunto da obra: músicas, vídeos, arte, história, roteiro, estratégia, escolha da equipe de trabalho. Mostra que o simples, como a fotografia usada para ilustrar a capa, pode ser eficiente. Também diz muito sobre a forma de comunicação. Ela não precisa ser rebuscada. Tem que apenas comunicar para que todos entendam, sem ruídos. O ponto central, que puxou o fio para essas linhas, é conhecer, apreciar e valorizar cada vez mais o quintal em que vivemos, mesmo que a grama não seja tão verde quanto a do vizinho.


