Zé Ibarra e o seu privilégio de ter privilégios
só talento não basta
Me deparei com o corte de um podcast em que Zé Ibarra reclama da suposta raiva que as pessoas têm de artistas que nascerem em famílias abastadas. Ele diz que o destaque que ganhou - e também seus amigos ex-Bala Desejo - foi exclusivamente pelo talento e não porque teve (e tem) privilégios. Porém, sabemos que essa é uma das grandes inverdades contadas por aqueles que querem se vitimizar pelo simples fato de não precisarem fazer tanto esforço para chegar onde estão.
É triste observar que ele não aprendeu nada com a turma da Bossa Nova, a mesma que fez o apagamento de quem não fazia parte do círculo de amizade dos seus “””fundadores””” [Alaíde Costa é testemunha disso].
A indignação com a fala dele, que hypou nessa onda moderna da MPB, bateu forte porque no dia anterior em que recebi o vídeo [abaixo] aconteceu uma chacina no Rio de Janeiro, resultando em mais de 120 mortos. Na visão de Zé, o talento é o seu único diferencial. É o que brilha os olhos. O que ele não considera é que nas periferias brasileiras o talentos estão se perdendo por falta de oportunidades. Na favela, um jovem tem que decidir se sobrevive ou sonha. Às vezes tenta fazer as duas coisas. Alguns conseguem, e outros ficam pelo caminho.
O fato é que enquanto Zé e os seus possuem o tempo necessário para estudar e se dedicar à arte, sem precisar trabalhar ou se esforçar efetivamente, as pessoas das classes subalternas, que prestam serviços para pessoas como o próprio, estão se esforçando para equilibrar estudos, trabalho e a vida. Não dá para ter tudo ao mesmo tempo, ainda mais quando o Estado só aparece para esculachar trabalhador, tirar a paz e vidas [em sua maioria negras].
Ter apenas talento não basta para viver de arte no Brasil. É necessário ter o que Zé Ibarra - e todos os que ele cita, tentando defender sua posição, tem: a pulseira de acesso ilimitado, disponibilizada pelos contatos que conseguiram pelo maravilhoso privilégio de serem privilegiados.


